Entre o que herdamos e o que nos falta, a literatura nasce como fissura.
Espelho Partido
Romance · Lançamento
"Escrever é atravessar o tempo.
É escutar o que foi silenciado, reconhecer as marcas que permanecem e encarar os fragmentos que compõem uma identidade."
A escrita de Phillipe Nery investiga o humano quando a tradição se rompe, quando os vínculos falham e quando o passado insiste em reaparecer no presente.
Phillipe Nery nasceu em São Paulo, em 1972. Formou-se em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina e vive atualmente no Rio de Janeiro.
Sua escrita desenvolve-se a partir da reflexão sobre a experiência humana, o tempo e as fissuras que atravessam as relações. Autor de crônicas, contos e romances, constrói narrativas que transitam entre o íntimo e o existencial, articulando memória, identidade e deslocamento histórico.
Espelho Partido é seu primeiro romance publicado.
Espelho Partido é uma travessia entre continentes, séculos e destinos.
Uma história que une Irlanda e Brasil por meio de uma linhagem marcada por crenças, deslocamentos e esquecimentos.
Vidas que pareciam destinadas a jamais se cruzar encontram-se quando antigos rastros voltam à superfície.
“O que nos constitui nem sempre é o que escolhemos lembrar.”
Este livro teve origem em uma proposta inteiramente diversa da que se encontrará nestas páginas. O romance, que acabou intitulado Espelho Partido, completou um longo processo de internalização e equacionamento surgidos no âmbito acadêmico. Foram questionamentos que abarcaram conceitos como o de identidade e de liberdade, especificamente uma liberdade realizada como a preconizava a antropofagia no movimento modernista brasileiro.
Confrontado com a afirmação de Augusto de Campos sobre ser a antropofagia “a única filosofia original brasileira”, iniciei uma pesquisa que permitisse revelar a dimensão filosófica dessa ideia.
A ideia de um trabalho teórico, porém, foi deixada para outra ocasião. E a melhor maneira de progredirmos no esclarecimento da única filosofia original do Brasil não se mostrou com o gênero ensaístico, mas com a poesia e o romance, tendo como recurso o uso da linguagem corrente. O esforço anterior de autores consagrados não só pode como deve ser atualizado pelos contemporâneos. Nisso reside uma das motivações que me levaram a escrever este romance.
Nessa atualização, esta obra combina elementos determinantes do mundo real para a construção do enredo. A progressão histórica como a conhecemos, o contexto sociocultural de um lugar específico e personagens inseridos nesse espaço-tempo foram ingredientes determinantes da estrutura do texto. Meu propósito foi trazer ao leitor uma narrativa envolvente que, antes de tudo, lhe seja agradável, instigante e crítica.
Em 2022, ano do bicentenário da Independência do Brasil, ressurgiram questões sobre identidade e emancipação. Foi uma deixa para o enredo desta obra. A sequência de eventos que remonta à chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro colocou-se de modo incisivo diante do mito irlandês homônimo (Ilha de Hy Brazil), que passou a ser objeto de pesquisa para integrar a saga familiar no romance.
Eu tinha à disposição material suficiente para construir uma história cheia de possibilidades: seria este país uma terra abençoada? A cronologia do século XIX até os dias de hoje poderia responder à pergunta.
Numa concepção antropofágica, a afirmação da identidade própria deve resolver-se sob o ataque da tribo inimiga. Deve resolver-se em face do assédio colonial. Também ante o arbítrio de uma tradição, o jugo paterno ou o ideal de um mito. Trata-se da questão existencial da narrativa, que fica a cargo de dois irmãos resolver.
Esse desafio é trazido até o nosso contexto sociocultural em uma cidade que, se não é a própria face do Brasil, é sua máscara. O Rio de Janeiro habita os personagens e seus afetos.
Tratando-se de um romance, sempre aspirei a que o leitor reconhecesse sua própria história e desfrutasse da narrativa. Espero que o livro seja capaz de concretizar esse desejo.
Sua alegria, leitor, é que vai ser a prova dos
A paz era fria, como as noites hibernais nos descampados ventosos de Cork. Mas a névoa trouxe uma claridade tênue em sua opacidade. Logo, o vapor emanado dos charcos indicava a ausência de qualquer movimento do ar.
A neblina entreabria-se, como uma cortina para a visão distante dos penhascos irlandeses, o mar irrompendo ameaçador contra suas paredes escuras. Tornava a fechar-se, nebulosa.
Então, um sabor amargo e um odor adocicado. A bruma exalava. Não era vapor, mas fumaça.
Erguia-se, novamente, o véu gasoso, revelando sombras trêmulas sobre uma parede vegetal. Por trás dessas sombras, uma fogueira de chama irresoluta. Um maço de folhas queimava por um sopro, criando muito fumo, que subia com faíscas e era conduzido por um guizo ritmado.
Uma voz humana, dizendo coisas ininteligíveis... dizendo não: cantando. Uma toada triste de um mundo que o homem quer esquecer.
Um calor dos infernos!
Tremia de tanto calor, ao ritmo do chocalho. O calor chegava à fervura, fazendo alevantar, de novo, a parede de vapor.
A beleza da Irlanda é realçada no verão. O salgueiro-chorão a destacar-se da relva e da profusão de flores silvestres. Trevos de quatro folhas dão sorte!
Uma figura de mulher. Maureen era seu nome.
O santo maltrapilho proclamava algo sobre uma ilha bendita, escondida dos descrentes pelas nuvens do horizonte marinho. As nuvens, a névoa que sai de trás de uma cortina de palha.
Ela dissolve-se, ou melhor, condensa-se em água que faz tudo submergir. Do líquido cristalino surge um rosto. Não, uma cabeça de peixe. Olhos esbugalhados e boca mole de pescado infeliz, sufocando no ar.
Mas não tem a cor de prata, e sim de um bronze bem polido. De qualquer modo, um metal que não é tão valioso quanto o minério argênteo.
Mas esse peixe é conhecido!
É ele mesmo!
O comerciante Caramuru, sem seu disfarce de civilizado!
— Cabeça de Brasa — ele diz —, teu destino de Cobra-Grande é engravidar a índia!
A boca que não fala vai te engolir, e a alegria da terra toda vai ser a prova dos nove!
Lançado em abril 2026
O lançamento de Espelho Partido marca a estreia de Phillipe Nery no romance e o início de um projeto literário voltado à construção de uma obra contínua, reflexiva e autoral.
Ilustraçõeas: Paulo Mariotti
Ilustraçõeas: Paulo Mariotti